Entre likes e silêncios: o peso invisível das redes sociais na saúde mental dos jovens
Num mundo onde deslizar o dedo se tornou quase um reflexo automático, importa fazer uma pausa — não para desligar, mas para pensar. Que impacto têm realmente as redes sociais na nossa saúde mental? E, mais importante ainda: estamos conscientes desse impacto ou apenas a viver dentro dele?
Os números não deixam margem para romantizações. Um estudo do Pew Research Center revela que 48% dos adolescentes acreditam que as redes sociais prejudicam a saúde mental, sendo que quase metade gostaria de passar menos tempo online . Ainda mais alarmante, dados do Panorama da Saúde Mental 2024 indicam que 45% dos casos de ansiedade em jovens estão associados ao uso intensivo de redes sociais . A questão impõe-se: se sabemos que nos faz mal, porque continuamos?

Fonte: Gemini
A resposta pode residir num dos mecanismos mais subtis — e perigosos — do ambiente digital: a comparação social. As redes sociais funcionam como vitrines cuidadosamente editadas da vida alheia. Viagens perfeitas, corpos idealizados, conquistas constantes. Mas onde ficam os fracassos, as inseguranças, os dias maus? Segundo especialistas, esta exposição contínua a “vidas perfeitas” cria padrões irreais e uma pressão silenciosa para corresponder a expectativas inalcançáveis .
A psicóloga Michelle Costa afirma que “os impactos das redes sociais são ambíguos”, podendo tanto aproximar como isolar os jovens . Esta ambiguidade é central: o mesmo espaço que liga pessoas também pode amplificar sentimentos de solidão e inadequação. Será que estamos mais conectados — ou apenas mais expostos?
Outro ponto crítico é a autoestima. Cerca de 40% dos jovens admitem que a sua autoestima depende do número de gostos e comentários . Quando a validação externa se torna métrica de valor pessoal, cria-se um ciclo vicioso: publica-se para receber aprovação, e a ausência dessa aprovação gera frustração. Não estaremos, afinal, a terceirizar o nosso valor aos algoritmos?
E depois há a dependência digital. Não falamos apenas de passar “muito tempo” online, mas de uma relação quase compulsiva com o digital. Dados recentes mostram que o uso problemático das redes sociais tem vindo a aumentar globalmente, passando de 7% para 11% entre adolescentes em poucos anos . Mais preocupante ainda: muitos jovens atrasam o sono ou sacrificam horas de descanso para permanecer ligados. Vale a pena trocar o descanso por mais alguns minutos de scroll?

Fonte: Gemini
Contudo, reduzir o debate a uma visão puramente negativa seria simplista — e injusto. As redes sociais também oferecem benefícios reais: acesso à informação, criação de comunidades, expressão individual. Estudos indicam que o uso ativo — conversar, criar, partilhar — pode estar associado a menores níveis de ansiedade, ao contrário do consumo passivo e contínuo . Portanto, a questão talvez não seja “usar ou não usar”, mas como usamos.
Ainda assim, não podemos ignorar o contexto mais amplo. A Organização Mundial da Saúde estima que entre 10% e 20% dos jovens sofrem de problemas de saúde mental, sendo o suicídio uma das principais causas de morte nesta faixa etária . As redes sociais não são a única causa — mas são, sem dúvida, um amplificador.
Aqui entra o papel da consciência crítica. Será que estamos a consumir conteúdo — ou a ser consumidos por ele? Quando abrimos uma aplicação, temos um objetivo claro ou apenas seguimos o impulso? E, talvez a pergunta mais desconfortável: quem somos nós fora do ecrã?
O desafio não está em demonizar a tecnologia, mas em recuperar o controlo sobre ela. Isso implica educação digital, literacia emocional e, acima de tudo, reflexão. Porque no meio de notificações constantes e feeds infinitos, a saúde mental não pode ser apenas mais um detalhe secundário.
Talvez esteja na altura de redefinir o que significa estar “ligado”. Afinal, de que serve estar permanentemente online se isso nos afasta de nós próprios?
Para saber mais sobre este tema:
https://www.laboratoriob.eu/ambiente-digital/383-redes-sociais-e-marketing-viral

